Águas que movem moinhos

Video: Águas que movem moinhos. (atomgobi e Tarabelo)

 

O dia 7 de abril é o dia dos moinhos abertos em Portugal. 216 moinhos em 90 núcleos  de 14 distritos em 44 municipios, no marco de umas jornadas promovidas pela Rede Portuguesa de Moinhos em colaboração com a TIMS (Sociedade Internacional de Molinologia) estarão abertos. Trata-se de um espaço de encontro de pessoas e instituições que  conhecem, estudam, possuem, exploram, recuperam ou promovem a reutilização dos moinhos tradicionais portugueses.
O objectivo é de chamar a atenção para o inestimável valor patrimonial dos moinhos tradicionais, por forma a motivar e coordenar vontades e esforços de organizações associativas, Museus, investigadorxs, molinólogxs, entusiastas e amigxs dos moinhos. As actividades são variadas, desde visitas guiadas, demonstrações de moagem e provas de pão, acções de limpeza e conservação e até na própria recuperação.

 

[pdf]http://montenoso.net/blogue/wp-content/uploads/2014/04/MOINHOS_ABERTOS_2014.PT_.folheto.pdf[/pdf]

 

O Moinho do Meio de Tuizelo
(Sara e Iv) Um destes moinhos é o moinho comunitário de Tuizelo (concelho de Vinhais, Distrito de Bragança). Despois de três décadas de abandono foi restaurado em Setembro do ano passado num campo de trabalho voluntário no qual participaram jovens de Portugal, Galiza (ADEGA), Espanha e França para depois ser devolvido o uso deste engenho já a funcionar para xs habitantes de Tuizelo. As associacões Tarabelo e Palombar coordenaram a iniciativa que desemboca na inauguração do moinho e na exposição na aldeia com as fotos tiradas pelxs voluntárixs dxs informantes locais, que lhes proporcionavam histórias e memórias do moinho e sobre a forma de viver antigamente, durante o processo de rehabilitação do moinho, que vai ser inaugurada no dia 6 de Abril para celebrar o dia dos moinhos abertos. Além destas fotografías tiradas com habitantes na aldeia, outras sobre o processo da reconstrução e com xs voluntárixs, igualmente serão expostas na Junta da Freguesia de Tuizelo.

 

 

moinhosAbertos

 

O XXXIII Campo de Trabalho Internacional e a recuperação do Moinho do Meio de Tuizelo

 

Campo de Traballo
Imaxe: Em Guadramil, a aprender o funcionamento do lagar comunitário (Tarabelo)

 

(Sara) A Associação PALOMBAR proporcionou o acompanhamento técnico da recuperação do moinho em colaboração com a Associação Tarabelo, responsável pela parte logística (concelho de Vinhais, Distrito de Bragança) no qual participaram jovens portuguesxs, galegxs, espanhóis/as, ingleses/as e franceses que durante 15 dias, de 1 a 15 de Setembro de 2013, recuperaram a estrutura de um antigo moinho-de-água comunitário encerrado há cerca de 70 anos. As paredes foram de novo levantadas, o telhado foi substituído e todos os engenhos de madeira e ferro que asseguram a moenda tradicional repostos. Para tal, foi indispensável o apoio da Junta de Freguesia de Tuizelo e da Câmara Municipal de Vinhais.

 

Um grupo de 8 jovens recolheu as memórias, histórias e quotidiano associadas/os a esse mesmo moinho. Onde podemos encontrá-las?

 

memoriasTuizelo
Imaxe: A Tia Gracinda a cantar-nos “Rosinha” (Tarabelo)

 

(Sara) Essas memórias, histórias e representação do quotidiano poderão ser encontradas na exposição que a Associação Tarabelo irá realizar na aldeia de Tuizelo, no dia 6 de Abril, aquando da recolocação do moinho comunitário em funcionamento após 70 anos de abandono. Nessa exposição a visitar na Casa do Povo da aldeia, os visitantes poderão encontrar o registo fotográfico conduzido pelos 8 jovnes junto da população de Tuizelo, as gravações das entrevistas efectuadas aos mesmos, assim como duas curtas-metragens que se encontrarão em projecção contínua neste mesmo espaço. Futuramente pretendemos, após a criação da página de internet da associação disponibilizar estes materiais online.

 

O moinho é comunitário, pertence às pessoas que moram em Vinhais ou num núcleo mais pequeno? 
(Sara) O moinho de Tuizelo pertence apenas à aldeia de Tuizelo que conta com cerca de 100 habitantes. Esta pequena construção, com dois séculos foi construída pelos habitantes há século e meio, numa linha onde se encontram mais dois moinhos sendo utilizada por todxs para moer o cereal – centeio, trigo e milho utilizados para fazer pão ou farinha para alimentar os animais.

 

Quais são as particularidades deste moinho?
(Sara) Concretando ainda um pouco mais, a especificidade arquitectónica do Moinho comunitário de Tuizelo, a sua localização próxima ao povoado com boas acessibilidades, a sua importância para a comunidade que pretende voltar a utilizá-lo para a moenda de milho para alimentação animal e a beleza do espaço circundante torna-o, ao contrário de muitos outros, recuperável. Por isto, a retoma do seu uso para moagem, produção de electricidade, turismo, utilização pedagógica e outras, deve continuar a fazer sentido para todos quantos os que se envolveram connosco neste projecto e é esse facto que justifica a continuação do nosso trabalho.

 

Quantos moinhos comunais há aproximadamente em Portugal e quantos estão recuperados e em uso?
(Sara) Existiam, no século XIX cerca de 32 000 moinhos no nosso país, maioritariamente comunais que viram o seu número drasticamente reduzido até à década de 70, quando o êxodo rural era já incontornável. Nos anos 80, muitos foram recuperados pelo Parque Natural de Montesinho, área protegida onde nos encontramos, mas apenas com finalidades turísticas, uma vez que já não existiam pessoas para fazer andar os engenhos… Hoje em dia alguns privados estão a recuperar os moinhos que entretanto compraram para unidades de turismo rural, produção energética ou outras. Os moinhos de água são um recurso efectivamente sub-aproveitado uma vez que os habitantes recorrem a moagens eléctricas para os substituir. No entanto, as novas potencialidades dos mesmos não estão a ser aproveitadas.

 

Como se gere a propriedade? A quem pertence jurídicamente? Está já em activo? 
(Sara) Hoje em dia os moinhos continuam a ser predominantemente comunitários mas como foram abandonados encontram-se na jurisdição das Juntas de Freguesia – i.é. as juntas decidem o que fazer com o moinho: vendê-lo, recuperá-lo, etc. geralmente depois de consulta popular, mas essa consulta pode chegar a não ocorrer. (Ainda não está activo, só vai ser inaugurada no dia 6.)

 

O Dia Nacional dos Moinhos 2014. Quais são os objetivos?

Vídeo:Día dos moinhos abertos 2013. (Tarabelo)

 

(moinhosdeportugal) Pretendemos lançar uma iniciativa de alcance nacional e ampla divulgação com o objectivo de chamar a atenção dos Portugueses para o inestimável valor patrimonial dos nossos moinhos tradicionais, por forma a motivar e coordenar vontades e esforços de proprietários, organizações associativas, autarquias locais, museus, investigadores, molinólogos, entusiastas e amigos dos moinhos. Esta iniciativa promovida pela Etnoideia tem o apoio da TIMS, Sociedade Internacional de Molinologia, cujos membros não pertencentes à Rede Portuguesa são convidados a aderir e colaborar. A TIMS colaborará ainda ao nível da divulgação internacional do evento por todo o mundo.Este dia, além de chamar a atenção para os moinhos tradicionais portugueses poderá também servir para identificar problemas e oportunidades, germinar projectos e ideias, ou mesmo para levar a cabo pequenas beneficiações (limpezas, pinturas, consertos de coberturas, etc.) com a participação de activistas e visitantes que o pretendam, preservando os moinhos e criando dinâmicas em torno deles.

 

Qual e a dimensão material e inmaterial dos moinhos? Porque é tão urgente a sua recuperação?
(sara) Os moinhos antigos não conseguem competir, em termos de produção, com os aparatos industriais de moenda, que acabaram por os silenciar, mas têm muito a dizer relativamente aos grandes empreendimentos hidroeléctricos, que colocam Portugal no mapa dos países do mundo com mais de 20% de electricidade produzida por recursos “limpos e renováveis”- acontece que as grandes barragens provocam a morte de uma fauna e flora únicas e conduzem também ao empobrecimento humano dos lugares. Quando chegarmos à meta prevista de 50%, em 2020, se nada for feito, a paisagem molinológica será então ainda mais fantasmagórica, quando poderia ter contribuído, de forma mais sustentável e com as necessárias adaptações, para atingir esta média, ao nível local. Alguns moinhos-de-água insistiram na sua função até aos nossos dias, permitindo até a criação de pequenas empresas panadeiras ou a electrificação de casas através da instalação de um gerador ligado ao rodízio.
(Iv) No que concerne a dimensão inmaterial, podia-se mencionar toda a cultura associada à estas edificações, engenhos, lugares (espaços). As memórias, as vivências, as histórias, lendas, hábitos, costumes, conhecimentos, usos, o saber fazer (não só a parte da moagem, senão a parte da construção da estrutura, e a manutenção das peças como por exemplo o “picar a mó”), a denominações das partes (que variam conforme o local), e também os acontecimentos particulares no moinho (como as noitadas enquanto se esperava que se moesse o cereal), etc.
Só para acrescentar que as pessoas da aldeia, no geral, receberam com entusiasmo xs voluntárixs, um senhor até partilhou um poema escrito sobre o moinho que foi editado pela Associação (com ajuda do programa Juventude em Acção) num quaderno junto com algumas fotografias e frases mais marcantes sobre o moinho e sobre o modo de viver relacionado com estas edificações, junto com as explicações sobre o projecto da recuperação.

 

Estão conectadas com experiências similares noutros territórios?
Tivemos conhecimento por uma pesquisa na Internet (ver vídeo), como nos rios do Nepal, Paquistão, India e Indonésia, os antigos moinhos foram optimizados (com a ajuda de uma organização para o desenvolvimento sediada na Holanda), libertando as comunidades, concretamente as camadas mais jovens e as mulheres, de alguns trabalhos agrícolas demorados e intensivos criando espaço para o empreendedorismo e reforçando o papel da escolaridade. São hoje estes países que nos dão verdadeiras lições no que concerne à sustentabilidade e à redução da utilização de combustíveis fósseis.
Em território asturiano, conhecemos a aldeia de Mazonovo, que alberga hoje um Museu Molinológico, sintoma da exploração hidroeléctrica recente que aí se fez até 1982, que fornecia energia a Taramundi e às aldeias ao redor. A aldeia da Moimenta da Raia (Portugal) foi uma das primeiras aldeias do concelho de Vinhais a conhecer a electricidade, fornecida por uma turbina que gerava energia a partir da força das águas do Rio Tuela.

 

Até que ponto a administração pública portuguesa se implica e financia estas iniciativas de recuperação de moinhos?
(Sara) Na nossa região a administração pública é sensível a estes temas embora se envolva essencialmente com propósitos turísticos de recriação da tradição da moenda. Algumas autarquias começam agora a virar-se para a produção energética para abastecimento de edifícios públicos.
Há que acrescentar que, de uma forma geral os moinhos que se vão recuperando (alguns com esforço privado outros com alguma ajuda por parte dos municípios), se destinam quase exclusivamente aos usos turísticos e educacionais (durante uma visita do estudo) e existem só escassos casos onde o moinho é recuperado para voltar a ser usado pela população local para moer cereais ou para fornecer electricidade.

 

Sobre as actividades contempladas na celebração do dia nacional dos moinhos abertos (5-6 de Abril)
(Sara) No próximo dia 5 e 6 de Abril de 2014 (dias dos moinhos abertos, celebrados à escala nacional –http://www.moinhosdeportugal.org/ws/), vamos inaugurar esse moinho, com a presença da população e instituições públicas que connosco colaboraram (Junta de Freguesia de Tuizelo e Câmara Municipal de Vinhais)

 

Haverá novos campos de trabalho?
(Sara) Anunciaremos um novo campo de trabalho internacional, a decorrer de 8 a 19 de Agosto deste ano, durante o qual recuperaremos o forno tradicional de Tuizelo, para podermos potenciar a utilização do cereal moído no moinho e poder potenciar o surgimento de novos projectos associados a estas estruturas que venham trazer novas dinâmicas a esta comunidade rural.

 

Que outras actividades estão a lançar desde a Associação Tarabelo para dinamizar entornos rurais? 

 

tarabelo
Imaxe: Ações da Tarabelo (Tarabelo)

 

(Sara) A Associação Tarabelo em por objectivo a promoção do património rural e natural, designadamente nas vertentes do desenvolvimento da natureza, ecologia e educação ambiental; a promoção de eventos culturais como oficinas de saber popular e ambiental, cinema e literatura; a criação de uma dinâmica rural entre os habitantes das aldeias, mediante o surgimento de um espaço de encontro, reflexão e debate para a população; o fomento do interesse e da acção em prol da cidadania, do reconhecimento e da valorização do património natural e construído.
 Assim mesmo, a associação organiza cursos na área da Conservação de Natureza e de Biologia, workshops de saberes locais (como por exemplo, a elaboração do cusco, o couscous local) campos de voluntariado, convívios, etc.

 

Trabalham sobre os Baldios? Conhecem organizações que o estejam a fazer?
(Sara) Federação Nacional dos Baldios: http://www.baladi.pt/sitio/ Aqui na região do Parque Natural de Montesinho existem bons exemplos das chamadas comissões de baldios. Na aldeia de Cova de Lua, concelho de Bragança, estas comissões têm recuperado moinhos, uma escola primária e outros. Lembro-me, por exemplo, da aldeia de Prada onde todos os anos a população se organiza para limpar o monte ao redor da aldeia no Inverno, para prevenir incêndios. Se dantes a população o fazia gratuitamente de livre vontade, bem integrada no sistema comunitário, hoje em dia recorre essencialmente a fundos comunitários que ajudam a custear o trabalho das pessoas envolvidas. Outro problema é o facto de as aldeias se encontrarem cada vez mais envelhecidas e despovoadas, pelo que o número de habitantes envolvidxs reduz de ano para ano.

 

A Associação Tarabelo
(rede)  A Associação Tarabelo na que faz parte a Sara é uma organização sediada em Vinhais que explora, há cerca de dois anos, as temáticas do desenvolvimento rural e da conservação da natureza e tem por principal objectivo a criação de sinergias que possam tornar as aldeias e o seu peculiar modo de vida atractivas aos seus habitantes, dando a conhecer o seu património e a sua profunda ligação com a manutenção da biodiversidade.Tem por principal objectivo a criação de sinergias que possam tornar as aldeias e o seu peculiar modo de vida atractivas aos seus habitantes, encorajando a comunidade a falar sobre si, a repensar-se, ao mesmo tempo que se abre ao mundo como unidade actuante, registando cuidadosamente o seu saber popular, as suas tradições e o seu crescimento. Xs membros pretendem explorar as temáticas do desenvolvimento rural, da conservação da biodiversidade, tão familiares aos habitantes das aldeias e, sobretudo, assegurar o movimento e acelerar a respiração das mesmas, mediante a realização de actividades frequentes.

 

A Associação Palombar
(rede)  Palombar,  associação para a Conservação da Natureza e do Património  Rural é uma associação sem fins lucrativos criada em 2000 com o objectivo de valorizar e revitalizar os pombais tradicionais do nordeste transmontano. Volvida mais de uma década de trabalho, as suas áreas de acção foram-se alargando, ainda que mantendo os pombais – palombares, em  mirandês – como ponto de referência. Os seus novos objectivos estão agora bem expressos no seu nome completo: a conservação dos ecossistemas agrícolas e selvagens da região, assim como a preservação do património edificado e respectivas técnicas  tradicionais de construção.
A manutenção de pombais, a organização de campos internacionais de trabalho voluntário, a reflorestação de árvores autóctones ou a realização de formações são apenas algumas das tarefas desempenhadas no âmbito de uma intervenção que tem a partilha de conhecimentos como princípio fundamental.

 

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